Marco Gomes

Interneteiro, imigrante, nerd, cristão, biker. Founder da boo-box (vendida) e Mova Mais. Consigliere do JovemNerd

Sobre uma região sem Estado e onde as pessoas se auto-organizaram

Publicado em 2016-10-08

“Se houver disparidade entre o mapa e o terreno, fique sempre com o terreno” – antiga regra do exército canadense

Eu já fui numa região praticamente sem presença do Estado, com auto-organização em pequenos grupos, trocas comerciais desreguladas e porte de armas liberado. As pessoas não saíram atirando umas nas outras nas ruas e a sociedade não se auto-destruiu, deixa eu te contar o que aconteceu.

Chegamos a poucos metros de território dominado pelo DAESH-ISIS. Viagem com Talita Ribeiro para o Curdistao Iraquiano.

Pouco tempo após a ausência de Estado, as pessoas estavam fazendo livres trocas comerciais, os que queriam tinham suas armas (inclusive fuzis) para proteção pessoal, resolviam as disputas civis com a decisão de líderes comunitários mutuamente respeitados (pense neles como pajés, xamãs, patriarcas) e múltiplas religiões conviviam.

Um dia os líderes da religião majoritária contaram a seus seguidores que iria chegar um novo grupo na cidade, ad-Dawlah al-Islāmiyah fī ‘l-ʿIrāq wa-sh-Shām, que iria trazer muitas benesses para o povo, como melhorias de infraestrutura urbana (água, luz, gás, estradas, combustível etc), saúde e medicamentos, proteção contra invasores externos. Como a infraestrutura da cidade e os serviços de saúde estavam precários, além das constantes ameaças estrangeiras que eram enfrentadas pelos moradores, rapidamente a maioria da população estava ansiosa para a chegada destes novos benfeitores e protetores.

Assim O Estado Islâmico do Iraque e do Levante chegou na cidade, sem invadir com tanques, sem empunhar armas. Chegaram com diplomacia, e com o apoio da maioria da população. Logo estabeleceram novas (velhas) leis e regras.

Os que não aceitam esta situação bem que tentaram vender as posses para se mudar, mas havia uma sugestão do DAESH-ISIS para ninguém fazer negócios de quem não aceite o novo regime. Mesmo tendo armas, seria impossível algumas famílias insatisfeitas enfrentarem sozinhas a maioria da população que apoiava o novo regime.

Poucos conseguiram vender o que tinham – por preços muito inferiores aos que normalmente seriam praticados –, muitos enfiaram nos carros o que foi possível e partiram. Foi destes refugiados que ouvimos as histórias que conto neste texto.

Com o tempo, a situação, antes aceita pela maioria da população, mudou. Chegaram os tanques, os blindados, muitas armas e soldados. As regras endureceram, quem não é de religião abraâmica é escravizado(a) para trabalho e estupros, ou são executados(as); os praticantes de outras regiões abraâmicas pagam impostos cada vez mais altos; quem decide deixar de seguir a religião majoritária é morto. Condenações à morte são constantes, comuns, e executadas nas praças e ruas.

Foi isso que aconteceu, repetidamente, de 2006 a 2015, nas cidades de um Iraque quase sem presença do Estado. A expansão do DAESH-ISIS parou quando os Estados da região, principalmente o não oficial Curdo, e os oficiais Sírio e Iraquiano – junto com grupos internacionais –, conseguiram organizar resistência à altura, tanto militar quanto política e ideológica.

A teoria é importante, estudar, ler e refletir é essencial, mas quando realidade constradiz os livros, fiquemos com a realidade.

Esta história é um dos meus motivos para considerar anarcocapitalistas de facebook, ou anarcoteens, apenas adolescentes (mesmo que só na mente) que ainda não observaram o mundo à sua volta. Viajar liberta.

PS:

  1. Não estou dizendo que o Estado deve controlar nossas vidas, nem que o Estado precisa ser enorme e burocrático (não é isso!).
  2. Não estou dizendo que a religião seria o mal do mundo, não acho que seja. No caso aí ela foi a ferramenta usada para conquista e controle do povo. Poderia ter sido (e foi também) posição política, ancestralidade, raça, ódio ao estrangeiro. No Iraque foi principalmente a religião porque era a ferramenta mais prática ali.
  3. Eu não sei se o anarcocapitalismo será absolutamente inviável pra sempre, mas eu acredito, pela minha vivência e conhecimento, que é inviável e insustentável hoje (ano 2016 da Era Comum).

* Essa história do Exército Canadense eu aprendi com o Gustavo Caetano.

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11 comentários

  1. Vinicius Ortiz comentou:

    Eu aprendi no Civilization III que Anarquia é um período de transição, nunca permanente

  2. Matheus comentou:

    Achei a critica ao Anacocapitalismo fraca e sem sentido, mas deve ser pq vc n viu como o movimento funciona, para deixar claro para vc Marco. O Ancap quer o fim do estado, nós Ancaps n achamos que se o estado de tds os países hj simplesmente desaparecesse o mundo ia virar um grande arco iris cheio de potes de ouro no final. O Anarcocapitalismo é um movimento libertário, ou seja só queremos que tds sejam livres, mas com a liberdade vem a responsabilidade, o esforço continuo, o conhecimento por vezes massacrante, enfim coisas com as quais a maioria das pessoas n está preparada para ter. Enfim, o fato de que o Anarcocapitalismo n funciona ATUALMENTE n significa que EVENTUALMENTE ele n vai funcionar, os Ancaps pensam no longo prazo, no curto prazo nos contentamos com politicas liberais e uma minarquia (estado minimo), algo que já foi provado dezenas de vezes que funciona e só melhora a economia de tds os países.

  3. malabarista comentou:

    Achei também a sua crítica um pouco fraca de argumentos sólidos.
    Acredito que o anarcocapitalismo vem funcionando sim, lógico que se tivéssemos meios de produzir uma economia de subsistência seria infinitamente mais viável e encorajaria mais jovens a se entregarem ao seu desejo libertário. Afinal é preciso adaptar-se com o mínimo necessário para sobreviver e/ou produzir arte libertária para as demais pessoas, levando-as aos poucos a (des)construir um campo ideológico sutil e crítico a forma de vigente de poder.
    Seja como for, esse modo de vida não é para qualquer um, precisa estar disposto a aprender e a praticar sua ideologia sem nenhum medo de sofrer ou fracassar. Sair de onde não está legal. Cada um faz o que quer, vive como desejar, com coragem, amor, ideologia e fé, pra crescer e desenvolver o melhor espírito possível. É sem pressa, sem ambição, naturalmente e aos pouquinhos, rapaz. Deixa as crianças serem também… :)

    • Marco Gomes comentou:

      “o anarcocapitalismo vem funcionando sim” então me mostra 1 lugar no mundo (sem ser uma vila, um lugar grande) que seja anarcocapitalista e “esteja funcionando sim”.

      • Renan comentou:

        Talvez uma sociedade sem monopólio territorial de leis ainda não funcione de fato principalmente por um único motivo:
        Porque quem tem poder sobre espólio a população não quer deixar esse poder, se quiser saber mais sobre: http://www.libertarianismo.org/index.php/artigos/pergunta-anti-libertarios-simplesmente-nao-vao-responder/.
        Um exemplo básico disso é liberland, um território que não pertencia à nenhuma nação ou pessoa, ai um “louco” foi lá e se declarou presidente do território e queria criar o país mais “libertário”(há controvérsias porque o país ainda teria uma constituição e políticos e impostos, mesmo que voluntários) do mundo. Não demorou muito para que os países vizinhos declarassem proibida a entrada ao território de liberland. Lembrando que essas pessoas não queriam acabar com o estado dos países vizinhos, não queriam obrigar a população desses à deixar de pagar impostos ou coisa parecida, queriam apenas viver em paz da forma que eles achavam melhor sem ninguém para os agredir. Se quiser saber mais sobre: https://www.youtube.com/watch?v=-rlOgQ5YNHc

  4. Xico comentou:

    Já disse o filósofo Thomas Jefferson: “O preço da liberdade é a vigilância eterna.” Essa sua crítica aí não tem nada a ver com anarcocapitalismo, amigo, você apenas demonstrou que as pessoas decidiram abandonar a liberdade, aceitando ser escravizadas pelo ISIS. Se não era essa a intenção inicial, não importa. Pessoas más, querendo te escravizar, provavelmente sempre vão existir, mas isso não quer dizer que você deve abrir as pernas para elas. Se você acha que aquele povo está pior com o ISIS do que estavam antes, então você só está falando a favor do ancap. Abraço.

    • Marco Gomes comentou:

      “as pessoas decidiram abandonar a liberdade, aceitando ser escravizadas pelo ISIS”

      olha amigo, recomendo que pegue suas economias, compre uma passagem de avião para Erbil e vá lá nos campos de refugiados ver com seus próprios olhos como as pessoas “aceitaram” ser escravizadas pelo ISIS. Abraços.

  5. Renan comentou:

    Marco, pelo que eu entendi do seu texto, você acha então que o problema de não haver estado (pelo visto o único já você diz que funcionou justiça e policia privada, mercado sem regulação etc) é de que um organização agressora(estado) possa vir e agredir pessoas pacificas?