Marco Gomes

Geek, imigrante, nerd, cristão, biker. Founder da boo-box (vendida) e do Heartbit. Consigliere do JovemNerd

“E eu não sou uma mulher?”, discurso de Sojourner Truth, ex-escrava que fugiu para a liberdade

Publicado em 2017-04-16

Para mim, Páscoa é sobre liberdade. Sojourner Truth, nascida Isabella Baumfree por volta de 1797 em Swartekill, Nova Iorque, foi uma abolicionista afro-americana e ativista dos direitos das mulheres. Sojourner nasceu escravizada e fugiu para o Canadá em 1827, levando com ela o seu filho mais novo.

Em 1829 Sojourner regressou a Nova Iorque, após a abolição da escravatura nesse estado. Durante mais de uma década trabalhou como empregada doméstica. Nesse período de tempo juntou-se a Elijah Pierson, dando sermões evangélicos nas ruas. Mais tarde tornou-se uma oradora famosa na defesa do abolicionismo e dos direitos das mulheres, sendo particularmente lembrada pelo célebre discurso Ain’t I a Woman?, que reproduzo abaixo.

No discurso Truth argumentou que, enquanto a cultura estadunidense colocava (metaforicamente) as mulheres brancas sobre um pedestal e lhes concediam certos “privilégios” (principalmente de não exercer atividades remuneradas) em decorrência de uma suposta inferioridade intelectual e física, esta atitude não era estendida às mulheres negras, acostumadas com o trabalho braçal. O discurso foi feito em resposta a um dos palestrantes do sexo masculino, o qual aparentemente estava na platéia.

Bem, crianças, onde há muita confusão deve haver algo de errado. Penso que entre os negros do Sul e as mulheres do Norte, todos falando sobre direitos, os homens brancos vão muito em breve ficar num aperto. Mas sobre o que todos aqui estão falando?

Aquele homem ali diz que as mulheres precisam ser ajudadas a entrar em carruagens, e erguidas para passar sobre valas e ter os melhores lugares em todas as partes. Ninguém nunca me ajudou a entrar em carruagens, a passar por cima de poças de lama ou me deu qualquer bom lugar! E não sou mulher? Olhem pra mim! Olhem pro meu braço! Tenho arado e plantado, e juntado em celeiros, e nenhum homem poderia me liderar! E não sou uma mulher? Posso trabalhar tanto quanto e comer tanto quanto um homem – quando consigo o que comer – e aguentar o chicote também! E não sou uma mulher? Dei à luz treze filhos, e vi a grande maioria ser vendida para a escravidão, e quando eu chorei com minha dor de mãe, ninguém, a não ser Jesus me ouviu! E não sou mulher?

Então eles falam sobre essa coisa na cabeça; como a chamam mesmo? [alguém na platéia sussurra, ‘intelecto’] É isso, meu bem. O que isso tem a ver com os direitos das mulheres ou dos negros? Se a minha xícara não comporta mais que uma medida, e a sua comporta o dobro, você não vai deixar que a minha meia medidazinha fique completamente cheia?

Depois aquele homenzinho de preto ali disse que as mulheres não podem ter tantos direitos quanto os homens, porque Cristo não era mulher! De onde o seu Cristo veio? De onde o seu Cristo veio? De Deus e de uma mulher! O homem não teve nada a ver com Ele.

Se a primeira mulher feita por Deus teve força bastante para virar o mundo de ponta-cabeça sozinha, estas mulheres juntas serão capazes de colocá-lo na posição certa novamente! E agora que elas estão querendo fazê-lo, é melhor que os homens permitam.

Obrigado aos que me ouviram, e agora a velha Sojourner não tem mais nada a dizer.

– Sojourner Truth

Sojourner Truth, mulher preta já idosa, com óculos pequenos e a cabeça coberta por um tipo de touca ou lenço branco.

Sojourner Truth, a primeira afro-americana a ganhar um caso judicial contra um homem branco

Sobre as reações da audiência ao discurso, o seguinte relato contemporâneo foi extraído de History of Woman Suffrage de Frances Gage:

Em meio a um bramido de aplausos, ela voltou ao seu canto deixando muitas de nós com os olhos cheios de lágrimas, e os corações repletos de gratidão. Ela havia nos tomado em seus braços fortes e nos carregado em segurança sobre um charco de dificuldades, virando totalmente a maré a nosso favor.

Eu nunca antes em minha vida havia visto algo como a influência mágica que subjugou o espírito de desordem daquele dia, e transformou as zombarias e ironias de uma multidão excitada em comentários de respeito e admiração. Centenas afluíram para apertar as mãos dela, e congratular a velha mãe gloriosa, e desejar-lhe sucesso em sua missão de “testemunhar contra a maldade desta gente”.

Feliz Páscoa, e liberdade.

Textos relacionados:

Deixe sua opinião

Um comentário