Marco Gomes

Geek, imigrante, nerd, periférico, biker. Founder da boo-box (vendida) e do Heartbit. Consigliere do JovemNerd.

Como robôs podem formar um mercado que não depende de consumidores humanos

Publicado em 2019-07-08

Na discussão sobre automação dos postos de trabalho e desemprego em massa, muita gente alega que, sem trabalhadores humanos, haveria um colapso do mercado, pois as pessoas desempregadas não iriam consumir o que os robôs produzem. Eu considero esta uma perspectiva incompleta, robôs podem sim formar um mercado.

Uma multidão de robôs "Bender" do Futurama, alguns bebem cerveja, outros conversam entre si.

Um ecossistema de robôs pode sim constituir um mercado apenas por interesse de cumprir o que foram programados, exatamente como nós humanos seguimos nossa “programação” biológica. Noah Yuval Harari explora brevemente este cenário no livro 21 Lições Para o Século 21.

Os detentores dos meios de produção, os capitalistas, dependiam de uma classe trabalhadora assalariada e consumista apenas nas revoluções industriais, este inclusive foi um dos grandes motivadores das abolições da escravidão racial nas colônias sob influência geopolítica do império Britânico: o império Britânico precisava de assalariados para consumir os produtos de suas indústrias. Nos séculos 21 e 22 poderemos ver surgir um mercado completamente robótico.

Vou criar aqui um cenário simplificado e hipotético, que ilustra tal dinâmica:

  1. um robô coleta insumos e produz energia, por exemplo combustível fóssil, nuclear, ou baterias carregadas com energia de luz solar ou do vento;
  2. outro robô “compra” esta energia e transporta sob encomenda da fábrica que produz componentes para robôs, esta fábrica também compra insumos (metal, plástico etc) de outros robôs que extraem e preparam os insumos que ela precisa;
  3. o transporte da energia até a fábrica é arriscado, há humanos famintos tentando roubar os produtos que estão sendo transportados, então o robô de transporte contrata drones especializados em segurança, que fazem a escolta da carga e recebem seu pagamento em valor monetário digital, ou em créditos de energia;
  4. este pagamento é usado pelos drones, e pelo robô de transporte, para comprar novos componentes produzidos pela fábrica de peças.

Viu? É um exemplo simples, mas ilustra como robôs podem, sozinhos, constituir um mercado sem depender de humanos consumindo. Se humanos “criaram” um mercado, e conseguem sustentá-lo, robôs podem também, seguindo os mesmos princípios básicos. E a margem de lucro deste mercado pode ser acumulada apenas para o pequeno grupo hiper-bilionário que controla os robôs, ou nem isso, e os robôs talvez controlem a si mesmos sem humano algum.

Neste cenário hipotético propositadamente exagerado, humanos pobres trabalhadores não são necessários para manutenção do mercado, nem para alimentar a fortuna dos poucos humanos bilionários e detentores dos meios de produção.

É possível que, um dia, humanos fiquem obsoletos tanto para produzir quanto para consumir.

Foto de robô quadrúpede de visual rústico, cheio de cabos, barras e componentes expostos.

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5 comentários

  1. Laerte Adler comentou:

    Eu vejo exatamente dessa maneira (e fecho os olhos para viver melhor :D).

    Do ponto de vista econômico os humanos serão dispensáveis rapidamente, porém, pode ter (ou não) outros aspectos nesse ecossistema tão complexo que os humanos sejam necessários.

    Não tenho ideia de qual seria esse aspecto!

  2. Bruno comentou:

    Lembrei do conto Autofab, do Philip K. Dick, onde as máquinas passam a produzir à revelia dos humanos, que tentam a todo custo desligá-las! Mas o cenário apresentado pelo Marco Gomes é mais complexo e ainda mais assustador

  3. Diego Marangoni comentou:

    Não gostaria de ver essa situação, mas será que ela pode ser simulada, virtualmente? Seria interessante saber como um mercado de robôs se auto-regularia e como lidaria com a escassez de matéria prima, por exemplo.

  4. Vitor comentou:

    Sem brincadeira.
    Depois que li 21 Lições Para o Século XXI, eu tomei a decisão de fazer uma vasectomia.
    Sério, basta de gente para viver esse futuro.