Sobre uma região sem Estado e onde as pessoas se auto-organizaram

“Se houver disparidade entre o mapa e o terreno, fique sempre com o terreno” – antiga regra do exército canadense

Eu já fui numa região praticamente sem presença do Estado, com auto-organização em pequenos grupos, trocas comerciais desreguladas e porte de armas liberado. As pessoas não saíram atirando umas nas outras nas ruas e a sociedade não se auto-destruiu, deixa eu te contar o que aconteceu.

Chegamos a poucos metros de território dominado pelo DAESH-ISIS. Viagem com Talita Ribeiro para o Curdistao Iraquiano.

Pouco tempo após a ausência de Estado, as pessoas estavam fazendo livres trocas comerciais, os que queriam tinham suas armas (inclusive fuzis) para proteção pessoal, resolviam as disputas civis com a decisão de líderes comunitários mutuamente respeitados (pense neles como pajés, xamãs, patriarcas) e múltiplas religiões conviviam.

Um dia os líderes da religião majoritária contaram a seus seguidores que iria chegar um novo grupo na cidade, ad-Dawlah al-Islāmiyah fī ‘l-ʿIrāq wa-sh-Shām, que iria trazer muitas benesses para o povo, como melhorias de infraestrutura urbana (água, luz, gás, estradas, combustível etc), saúde e medicamentos, proteção contra invasores externos. Como a infraestrutura da cidade e os serviços de saúde estavam precários, além das constantes ameaças estrangeiras que eram enfrentadas pelos moradores, rapidamente a maioria da população estava ansiosa para a chegada destes novos benfeitores e protetores.

Assim O Estado Islâmico do Iraque e do Levante chegou na cidade, sem invadir com tanques, sem empunhar armas. Chegaram com diplomacia, e com o apoio da maioria da população. Logo estabeleceram novas (velhas) leis e regras.

Os que não aceitam esta situação bem que tentaram vender as posses para se mudar, mas havia uma sugestão do DAESH-ISIS para ninguém fazer negócios de quem não aceite o novo regime. Mesmo tendo armas, seria impossível algumas famílias insatisfeitas enfrentarem sozinhas a maioria da população que apoiava o novo regime.

Poucos conseguiram vender o que tinham – por preços muito inferiores aos que normalmente seriam praticados –, muitos enfiaram nos carros o que foi possível e partiram. Foi destes refugiados que ouvimos as histórias que conto neste texto.

Com o tempo, a situação, antes aceita pela maioria da população, mudou. Chegaram os tanques, os blindados, muitas armas e soldados. As regras endureceram, quem não é de religião abraâmica é escravizado(a) para trabalho e estupros, ou são executados(as); os praticantes de outras regiões abraâmicas pagam impostos cada vez mais altos; quem decide deixar de seguir a religião majoritária é morto. Condenações à morte são constantes, comuns, e executadas nas praças e ruas.

Foi isso que aconteceu, repetidamente, de 2006 a 2015, nas cidades de um Iraque quase sem presença do Estado. A expansão do DAESH-ISIS parou quando os Estados da região, principalmente o não oficial Curdo, e os oficiais Sírio e Iraquiano – junto com grupos internacionais –, conseguiram organizar resistência à altura, tanto militar quanto política e ideológica.

A teoria é importante, estudar, ler e refletir é essencial, mas quando realidade constradiz os livros, fiquemos com a realidade.

Esta história é um dos meus motivos para considerar anarcocapitalistas de facebook, ou anarcoteens, apenas adolescentes (mesmo que só na mente) que ainda não observaram o mundo à sua volta. Viajar liberta.

PS:

  1. Não estou dizendo que o Estado deve controlar nossas vidas, nem que o Estado precisa ser enorme e burocrático (não é isso!).
  2. Não estou dizendo que a religião seria o mal do mundo, não acho que seja. No caso aí ela foi a ferramenta usada para conquista e controle do povo. Poderia ter sido (e foi também) posição política, ancestralidade, raça, ódio ao estrangeiro. No Iraque foi principalmente a religião porque era a ferramenta mais prática ali.
  3. Eu não sei se o anarcocapitalismo será absolutamente inviável pra sempre, mas eu acredito, pela minha vivência e conhecimento, que é inviável e insustentável hoje (ano 2016 da Era Comum).

* Essa história do Exército Canadense eu aprendi com o Gustavo Caetano.