Marco Gomes

Geek, imigrante, nerd, periférico, biker. Founder da boo-box (vendida) e do Heartbit. Consigliere do JovemNerd.

Samba, bossa nova, rock e maconha legalizada. Respondendo uma pergunta sobre apropriação cultural

Publicado em 2019-02-20

Olá,

Sou M. E. , 22 anos, estudante de engenharia civil.

Tenho visto ultimamente nas redes sociais (principalmente twitter) uma grande discussão sobre apropriação cultural. Eu particularmente pouco entendo desse conceito e temo estar de alguma forma denegrindo alguma cultura por mera ignorância. Na faculdade há bastante discussão sobre o assunto, mas raramente se chega a conclusões racionais sobre o assunto.

Acompanho você a pouco tempo nas redes sociais e dentre as pessoas que tenho o contato acho que é uns dos poucos que tem legitimidade, credibilidade e capacidade para falar sobre isso.

Gostaria muito de saber o que você acha sobre esta questão de apropriação cultural? Em sua opinião, utilizar de itens de outras culturas é errado? E PQ?

Desde já muito grato.


Minha resposta

Oi, tudo bem?

A discussão é complexa e profunda, e eu não sou o dono da verdade.

Sister Rosetta Tharpe, 1938. Uma mulher preta e gorda tocando guitarra e cantando em um salão de festas, atrás dela à esquerda da imagem, um casal sentado à mesa, atrás dela à direita da imagem, músicos da banda que a acompanhava.

Sister Rosetta Tharpe, 1938. Pioneira do Rock ‘n’ Roll

Resumindo minha opinião: eu não acho errado usar itens de outras culturas, errado é quando somente a pessoa privilegiada ganha dinheiro com algo do qual se apropriou. Por exemplo quando brancos começaram a fazer um derivado do samba, deram nome de “bossa nova” e a elite do novo mercado foi formada por muitos homens e algumas mulheres brancas, sem pretos e pretas da favela na linha de frente. Quando brancos nos anos 1950 começaram a fazer um derivado do blues, chamaram de rock e os principais protagonistas foram brancos; sem trazer junto para a linha de frente as pretas e os pretos que criaram o gênero (busque por Sister Rosetta Tharpe, por exemplo).

Também acho errado quando um item é considerado feio quando usado pela cultura do oprimido, mas aceito como “lindo” quando usado por pessoas privilegiadas. O turbante típico do candomblé é um exemplo, cabelos no estilo dreadlocks (rastafari) são outro exemplo.

Não se trata de impedir pessoas brancas, individualmente, de usar isto ou aquilo, se trata de reconhecer que as cultura pretas, indígenas, latinas, maori, etc, são lindas em si, e não apenas quando aprovadas e exploradas comercialmente por pessoas brancas.

Estamos vivendo isso agora nos EUA, na fase de legalização da maconha: no mercado de cannabis legalizado nos EUA, pessoas brancas são a maior parte dos executivos e donos de empresas, a maioria homens. As comunidades historicamente oprimidas pela guerra às drogas, pessoas pretas e latinas, estão, mais uma vez, de fora dos lucros do novo mercado.

Abraços.


Marco Gomes


Todas essas coisas novas que eles chamam de rock’n’roll, eu venho tocando isso há anos… Noventa por cento dos artistas de rock and roll saíram da igreja, sua fundação é a igreja.

– IRMÃ ROSETTA THARPE, 1957


Eu sou o primeiro ritmo a formar pretos ricos
O primeiro ritmo que tornou pretos livres
Anel no dedo em cada um dos cinco
Vento na minha cara eu me sinto vivo
A partir de agora considero tudo blues
O samba é blues, o rock é blues, o jazz é blues
O funk é blues, o soul é blues
Eu sou Exu do Blues
Tudo que quando era preto era do demônio
E depois virou branco e foi aceito eu vou chamar de blues
É isso, entenda
Jesus é blues
Falei mermo

“Bluesman”, de Baco Exu do Blues

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