Marco Gomes

Geek, imigrante, nerd, periférico, biker. Founder da boo-box (vendida) e do Heartbit. Consigliere do JovemNerd.

A nossa ~zoeira~ e trollagem podem prejudicar carreiras promissoras

Publicado em 2014-02-11

Um troll verde usando um computador

Protegidos pela frieza das telas e redes sociais, temos descarregado nossas frustrações pessoais ao fazer críticas, partindo para a agressão pessoal nas argumentações e comprometendo a motivação de bons profissionais.

Don Nguyen, criador do hit Flappy Bird, anunciou em seu Twitter que iria tirar o jogo do ar e não iria desenvolver novas versões, alegando inicialmente que o fez por não aguentar a pressão que a fama trouxe. Phil Fish, criador do megahit Fez, é, aparentemente, temperamental e sem a devida preparação psicológica, se irritou com a constante cobrança em fóruns e redes sociais e cancelou a produção de Fez 2, abrindo mão de milhões de dólares em faturamento que o jogo geraria.

Em uma sociedade essencialmente violenta, um meio de comunicação como a Internet, que suprime o contato pessoal físico, gera o que vou chamar de “valentões digitais”. Gente que, protegida pela distância física de seu “alvo”, dispara toda sua frustração e agressividade de uma maneira que não aconteceria em interações físicas.

Chegam a ponto de ameaçar, de maneira criminosa, as pessoas, vejam:

Post no Orkut: Fernando Luís: "Tem que quebrar na porrada, pra ver se toma vergonha. Meter bala na cara dos funcionários, pisar na cabeça e cuspir em cima. Depois arranca os dentes e guarda na carteira como recordação."

Vejam bem, o usuário que se identifica como Fernando Luís, na imagem acima, não está falando de um criminoso ou corrupto (mesmo assim seria violento, errado e criminoso), está descarregando sua frustração ao criticar um profissional.

Ilustração de homem derrubando sua mesa de trabalho, inscrição "fuck this shit" na parte inferior da imagem.

Este tipo de ataque pessoal, desnecessário e desequilibrado, gera frustração e angústia na vítima da agressão. Algumas pessoas reagem com “f*ck this shit” (f*da-se essa merda) e jogam tudo para o alto, como fizeram Don Nguyen e Phil Fish. Eles consideram que simplesmente não vale a pena aguentar toda essa pressão, agressões pessoais e demonstrações de ódio por um negócio, por mais que gere muito dinheiro. Outros profissionais tomam estas agressões como desafios pessoais e se motivam mais, transformando o que seria frustração em trabalhos surpreendentes, ganhando mais prêmios e fazendo mais sucesso, um caso muito interessante é o do desenvolvedor de games que escreveu o artigo “I Help Make Video Games, And I’m Sick Of The Hatred From Gamers” no Kotaku.

É importante dizer que eu não estou sugerindo cessar as críticas ao resultado de trabalho alheio, pelo contrário, as críticas são importantes e nos ajudam a crescer. Estou sugerindo o controle do cyberbullying, comportamento que cada um de nós está tentado a cometer ao criticar algo enquanto estamos protegidos pela impessoalidade dos meios digitais.

Independente de como usamos os serviços, se temos ou não uma boa experiência, o meu ponto aqui é que não deveríamos atacar pessoalmente as pessoas por conta de seu trabalho, e muito menos partir para ameaças de agressões físicas inclusive a seus amigos e familiares.

Vamos controlar o “valentão digital” que existe em cada um de nós?

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12 comentários

  1. Aíquis Rodrigues comentou:

    Marco, concordo em certos pontos com você mas os dois exemplos usados não o sustentam bem. O Fish, desde o desenvolvimento do primeiro Fez sempre foi mega temperamental, a cada semana dava um piti diferente. Tava claro que não ia aguentar muito tempo na indústria.

    Já o Nguyen certamente tomou uma “pressão” de alguma empresa (o que tem se comentado no meio é que MUITO provavelmente foi a Nintendo) . Algo como “ou tira do ar ou o dinheiro que vc tá ganhando não vai dar nem pro começo do processo”. Isso fica ainda mais perceptível quando o mesmo declara que tirou o jogo do ar pois estava “causando dependência”. Nada convincente, não é?

  2. Jafre Santana comentou:

    Marco, concordo com você.
    Faz um tempo que venho conversando com amigos sobre isso. É realmente muito frustrante ter o seu trabalho criticado de uma maneira tão ofensiva. Em 2012, eu tentei realizar um trabalho voltado para E-sports, onde sim, tive ótimos feedbacks, incentivando a continuidade do trabalho. Por outro lado recebi muitas criticas, que mesmo não tendo uma base concreta ou ligação com o trabalho que realizei, me desmotivou e muito a continuar. Eu não entendo por que as pessoas tendem a criticar o trabalho alheio, se que elas só tem a ganhar. Hoje eu brinco, faço uma piada ou outra, mas peso bem o que vou falar quando vou realizar uma critica acerca de um trabalho.

  3. Rafael Moreira comentou:

    Valeu, Marco. Ótimo texto.

    Primeiro como você disse, as pessoas não sabem diferenciar entre a crítica pessoal, e a crítica à obra ou trabalho.

    Mas tem uma coisa pior ainda, o que normalmente acontece não é crítica, mas ódio, que são coisas diferentes. O primeiro tem que partir de algum embasamento racional, com pontos específicos, e tudo que compõe de fato uma crítica seja essa profissional, ou apenas uma conversa entre amigos. Você vai dizer que não gosta de filme ou jogo X na mesa de bar, por X, Y e Z motivos, não apenas: “não gostei porque é um lixo.”

    Já o odio não, quando tenta ter algum argumento, já é na base do fiapo, e nada se salva dali.

    Acho que outro ponto a se ressaltar, é a própria responsabilidade da imprensa especializada em todo esse Hate Mob que ocorreu, alguns sites praticamente incitaram o ódio em cima do Dongatory. Esse artigo fala um pouco sobre isso http://www.blog.radiator.debacle.us/2014/02/an-alternate-history-of-flappy-bird-we.html e como pode ter sido também mais um caso de preconceito.

    Por último esse tweet, talvez seja o melhor resumo possível da história: https://twitter.com/S0phieH/status/432247450120630272

  4. Leandro comentou:

    Concordo, hoje os jogadores procuram algo pra odiar, ainda mais se esse algo é um sucesso de público.

    Quanto ao caso do rapaz do passarinho, cada um é cada um, por 50 mil dólares diários, você podia mijar na porta da minha casa, que eu não ligaria.

  5. Ismael comentou:

    Realmente, pra mim o Fish não pode ser parâmetro. No documentário Indie Game ficou claro que ele é bem instável. Mas sim, não tem justificativa pro tipo de crítica que costuma acontecer.

    Esse texto pode ter um irmão / uma sequência, vendo por outro viés:

    A “geração like”, ou algo assim, sobre como tem gente intolerante a crítica ou uma simples discordância. E claro, estou falando de críticas educadas.

    Cada vez mais vejo gente que parece aquele mimado que aprendeu dos pais que “se alguém te critica, é porque é invejoso, recalcado…”.

    Na cabeça do ser fica claro que se algo que fez não deu certo, é lógico que não é sua responsabilidade, é o universo malvado que conspirou contra.

  6. Rodrigo Dantas comentou:

    Marco concordo com o texto. Mas até que ponto podemos responder uma crítica não construtiva? Sempre me pergunto se ao receber uma simples frase de ataque em alguns artigos, até onde fica o limite de responder? Ou não responder?

    Falando de mim, eu respondo sempre ponderadamente, mas quando passam do limite, peço o respeito, os comentaristas de portais, estão em todos lugares, pela zoeira, pela trollagem e também pela simples vontade de polemizar. Eu por exemplo, acho um tanto corajoso da sua parte, responder as críticas pessoalmente em posts. De verdade eu acho corajoso, mas também sinto que quanto mais responde, mas eles perseguem. Tá um tanto desordenado.

    Grande Abraço,

    Rodrigo
    http://www.vindi.com.br
    http://www.sonhogrande.com

    • Vanessa Lampert comentou:

      Rodrigo, antigamente eu respondia, hoje adotei a tática que aprendi lá por 2001, na época em que frequentava os newsgroups do Uol: “Não alimente os trolls”. Ou, citando o primeiro mandamento do Millôr Fernandes: “Não se amplia a voz dos imbecis”. Se a crítica é bem embasada, beleza, a gente responde, se for caso de resposta. Mas se é só zoeira ou trollagem, não vale meu tempo, não.

      Se não tenho tempo de responder aos amigos, como vou ter tempo de responder aos inimigos? Você tem razão, quanto mais atenção se dá ao Troll, mais forte ele fica. E se você não der atenção, perde a graça. Ele vai trolar alguém mais “trolável”, digamos assim.

  7. Ivan Breno Souza comentou:

    Isso aí Marco, apesar dos exemplos não serem os melhores, o texto não precisa deles para se sustentar. É triste ver como o cyberbulling tem acabado com carreiras e projetos promissores. Certo dia pude ver como você lida com isso, nos comentários de um post no facebook, e você está da parabéns, mas infelizmente nem todos sabem lidar com isso e se desmotivam ao ponto de desistir dos seus projetos ou das mídias sociais, e quem perde sinos nós.