Marco Gomes

Tecnologia & Dados. Nerd, periférico, fã de rap, abolicionista. Fundador da boo-box (vendida). Consigliere do Jovem Nerd.

Sobre as ciclovias em São Paulo, vamos desmistificar com dados o uso de bikes no Brasil?

Published on 2014-set-15

Um pouco de pesquisa e estatística pode nos ajudar a discutir melhor sobre a implantação de ciclovias e ciclofaixas em São Paulo, para não corrermos o risco de sermos “contra tudo isso que está aí”, ao mesmo tempo que exigimos dos governos o devido planejamento e manutenção dos espaços públicos.

Capa: Vida Simples Especial: De Bike é Mais Gostoso

Estamos no meio de uma discussão (muito importante, em minha opinião) sobre a implantação de ciclovias e ciclofaixas em São Paulo. Eu, pessoalmente, gostaria que não houvessem ciclovias, prefiro que os espaços sejam compartilhados entre carros, bicicletas, motocicletas, ônibus, carroças etc; mas entendo que a segregação, às vezes, é necessária como medida de segurança e também para melhorar o tráfego das pessoas.

Mas entre a miríade de opiniões de todo tipo sobre as ciclofaixas em São Paulo, vemos muitas críticas desesperadas, vindas principalmente de gente que é “contra tudo isso que está aí” ou “contra o PT seja lá qual for o contexto”. A maior parte dessas críticas pode ser facilmente rebatida com um mínimo de estatística.

O governo vai deixar de arrecadar verba dos estacionamentos Zona Azul, pois as vagas vão dar lugar à ciclovia

Cada R$: 1 que é investido em reduzir a poluição rende R$: 8 em retorno ao Estado*, basicamente em economia de saúde pública por doenças respiratórias. Isso porque nem contamos nesta estatística o benefício secundário que o estado também tem ao reduzir o sedentarismo caso mais gente caminhe, pedale, use skate, patinete ou qualquer outro modo de locomoção com propulsão humana.

Eu citei o patinete no parágrafo anterior, para nós brasileiros isso pode parecer ridículo, mas em Nova York e em San Francisco é muito comum ver homens e mulheres se locomovendo em patinetes, e não estamos falando de hippies ou adolescentes, são pessoas em roupas formais de que trabalha em escritório, mulheres usando salto inclusive :)

Mulher andando de patinete por NYC, foto de Gary Hershorn

Um dia qualquer na Times Square, em Nova York, foto por Gary Hershorn.

Pouca gente usa bike, a maior parte das pessoas usa carro

Pouca gente usa bike, mas quem usa carro também não é maioria. 70% do espaço e dinheiro públicos são usados por 30% das pessoas, que usam carros particulares*. Se aceitamos que motoristas usem 70% do espaço público, por que os ciclistas não poderiam usar 5%?

E as pessoas pobres que moram na Zona Leste e usam o carro para vir trabalhar? Como ficam?

As pessoas que moram longe do trabalho e fazem longas viagens de carro não são o típico motorista brasileiro. A maioria das viagens de carro percorre uma distância de 6 km, a uma velocidade média de 12 km/h*. A título de curiosidade, eu pedalo 2 viagens diárias de 5 km cada uma, a 16 km/h em média, já contando o tempo parado em em semáforos.

Se menos gente (pobre ou rica) usar carro particular para viagens curtas, onde o carro não é o melhor modal de transporte, as pessoas que moram longe e precisam do carro ou ônibus serão beneficiadas por haver menos congestionamento, sejam essas pessoas pobres ou ricas.

Ir de bike para o trabalho é coisa de riquinho ecochato da Vila Madalena sommelier de ciclovia

Ir de bike p/ o trabalho não é coisa de rico. 93% dos ciclistas cotidianos (aqueles que usam bike como transporte) é das classes C-D-E*.

O trânsito em São Paulo já era horrível antes das ciclovias

A implantação de ciclovias e ciclofaixas em São Paulo tem erros e acertos, é importante que usemos esta situação para aprender a conviver melhor. Os congestionamentos já existiam antes das ciclovias e ciclofaixas e vão continuar existindo após elas, a diferença é que, com melhor suporte à bicicleta no trânsito da cidade, mais gente vai ter a opção de não engrossar o congestionamento.

Não foram as ciclovias que geraram 600 km de congestionamento em São Paulo, não vamos nos esquecer disso.

* os dados estão na Revista Vida Simples Especial, capa vermelha, Editora Abril.

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13 Comentários

  1. Ataide Junior disse:

    Boa sua abordagem, costumo tentar dar aos meus amigos que questionam o uso da bicicleta estastíticas como essas apresentadas aqui, creio que o importante é demonstrar que nao estamos lutando por um modismo e sim para uma realidade. Precisamos entender que nao é a magrela que resolverá os problemas de sampa, mas sim nos com mudancas do nosso comportamento.

  2. Marco, eu deixei algumas opiniões naquela discussão que rolou nesse fim de semana no Twitter, envolvendo alguns daqueles que estão “contra tudo”, e o problema que vi foram pessoas dizendo que elas não conseguiam usar a bicicleta como meio de transporte cotidiano, e que elas deveriam ser incentivadas apenas como lazer ou esporte. Ora, se o cara não consegue usar, então ele quer que ninguém mais use. Na cabeça dele isso faz sentido.

    Concordo contigo: uma mudança cultural, que pudesse nos beneficiar com espaços compartilhados, como acontece em países mais desenvolvidos, seria o ideal. Mas as mudanças culturais no Brasil precisam ser impostas, como aconteceu com o cinto de segurança nos carros há 20 anos atrás.

  3. Gabriel disse:

    Bacana seu post Marco.

    Em paris muita gente utiliza patinetes para se locomover. Por lá, é super tranquilo e as pessoas até curtem este meio de transporte. Aqui, a chance de você ser um “alien” por usar um patinente é grande, temos que desmitificar isso também.


    Gabriel Reynard
    Co-fundador do elaele
    http://www.elaele.com.br

  4. Nana disse:

    Adoraria ir trabalhar de bike, mas com os motoristas malucos que tem por ai, dá até medo.
    Bj e fk c Deus.
    Nana
    http://procurandoamigosvirtuais.blogspot.com.br

    • Tiago Barufi disse:

      A maioria dos motoristas não é de monstros, eu os tenho observado há muito tempo. Tem uns perigosos, mas creio ser possível aprender a detectá-los de longe e evitar problemas.

  5. Badboy disse:

    Marcao manda um post sobre seu treino para o audax

  6. nardel gonçalves silva disse:

    meu moro em são paulo,tenho 50 anos ,passei minha vida inteira ate aqui em cima de uma magrela,pessoas sem a menor experiencia que questionam estas implementaçoes cicloviaria,passam despercebidos até em casa com a familia,pois são do grupo dos sedentaristas,voce vê quem pedala esta sempre antenado nos fatores da sociedade,velo este estilo de vida de maneira natural e nem cheguei ao cultural,quer dizer temos que impor para que as coisas aconteção,veio pode saber o caras que conheço a maioria pedalam fim de semana,em meio as atribulação qeu a vida lhes proporciona,mais indiferente disto todos são otimistas,eles na maioria tem carro ,mais na maioria das vezes estão sempre a pe ou de bicicleta,resumo se for escalonar o carro fica na terceira prioridade sem o descriminar,ai eu pergunto onde esta a qualidade de vida,aqueles interpretam mal as ciclovia talves não goste de tantas outras coisas da vida e só sabem reclamar,faça sua parte comocidadão paulistano e logo se4 ressocialira.

  7. Tiago Barufi disse:

    Eu também ando de patinete em SP, é o melhor meio de transporte para combinar com metrô e ônibus. Na ciclovia é uma delícia.

  8. Sarah Hannah disse:

    olá, vc tem a fonte da pesquisa do metro de sp, idos é, o link, ou o nome da pesquisa?

  9. […] dos 400 km de ciclofaixas em Sampa, o debate degringolou feiamente (eu não acompanhei, mas o Marco Gomes conta tudo pra vocês). Eu estou feliz em ver o debate acontecer, embora nem tanto com as formas, mas… melhor isso […]

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