Marco Gomes

Interneteiro, imigrante, nerd, crist√£o, biker. Founder da boo-box (vendida) e Mova Mais. Consigliere do JovemNerd

ūü§Ē A quem interessa uma classe m√©dia que n√£o se v√™ como pobre?

Publicado em 2016-10-16

Criaram a “classe m√©dia” para apaziguar quem iria se rebelar se percebesse¬†que somos todos pobres: precisamos trabalhar para mantermos nosso estilo de vida e n√£o morrermos de fome.

Mulher com roupas chiques aponta para a c√Ęmera com uma m√£o, na outra um microfone; atr√°s dela, uma multid√£o de esfarrapados; nas laterais, soldados fardados e armados

Na minha opinião, só é rico, mesmo, quem pode parar de trabalhar e o dinheiro da pessoa continuaria gerando mais dinheiro, a ponto dela nunca mais ficar pobre. Todo o resto é pobre. Se você precisa trabalhar para manter seu padrão de vida e conforto, você é pobre. Rico de verdade pode viver do dinheiro que o dinheiro gera.

Com inten√ß√£o de manter o status quo,¬†criaram¬†“a classe m√©dia”, que tem nojo do pobre (inclusive se for ex-pobre); e acha que √© rica (mas √© pobre). Pobres. Assim a “classe m√©dia” topa enfiar com areia nos pobres e em si pr√≥pria (pois √© pobre) para manter regalias de quem controla tudo: Pol√≠ticos e Empreendedores Amigos do Estado‚ĄĘ, que √© como chamo os empres√°rios-pol√≠ticos a quem o Estado regularmente socorre¬†usando o dinheiro dos¬†impostos que voc√™ paga.

No Brasil o rico normalmente pega todo o dinheiro que precisa como dividendo, n√£o como pr√≥-labore, e com isso ele n√£o paga Imposto de Renda, √© isso¬†que diz a lei do¬†pa√≠s. N√≥s (pobres) recebemos sal√°rio ou pr√≥-labore (em caso de pequenos e m√©dios empres√°rios), portanto, pagamos Imposto de Renda.¬†Com isso o¬†nosso dinheiro √© usado para construir e manter os bairros que eles moram. Voc√™ paga Imposto de Renda e o seu dinheiro faz bairros dignos de primeiro mundo (literalmente) para os Pol√≠ticos e Empreendedores Amigos do Estado‚ĄĘ,¬†que, repito,¬†normalmente n√£o pagam IR (ou pagam apenas sobre uma pequena¬†parte de sua remunera√ß√£o total).

Por “bairro” n√£o estou falando apenas de cal√ßada e asfalto, estou falando do¬†ambiente todo, inclusive e principalmente seguran√ßa. Compare os √≠ndices de viol√™ncia entre Lago Sul/Recanto das Emas, Jardim Paulista/Cap√£o Redondo, Leblon/Rocinha e voc√™ vai entender o que eu quero dizer. Os pol√≠ticos¬†usam o seu dinheiro para manter a seguran√ßa deles e dos seus, e tente voc√™ ir fazer protesto e fechar rua no Lago Sul para ver o que te acontece.

IMHO o problema n√£o √© apenas o rico pagar pouco imposto, o problema est√° no pobre pagar muito imposto e isso ser usado para sustentar o estilo de vida dos Pol√≠ticos e Empreendedores Amigos do Estado‚ĄĘ.

Resolvi falar porque fico triste em ver morador de favela achando que mora em cidade porque tem asfalto; pobre achando que é rico porque tem carro zero…

Vis√£o de um bairro com ruas de terra, casas prec√°rias com tijolos expostos

“Mans√Ķes Para√≠so”, um dos novos bairros do Gama, DF. H√° outros bairros com melhor estrutura urbana, mas nenhum deles lembra um pa√≠s desenvolvido.

L√° no Gama-DF, de onde venho, gastaram R$785 milh√Ķes para fazer um BRT que piorou a vida de quem usa transporte p√ļblico na cidade¬†‚Äď em muitos casos a viagem precisa de 3 √īnibus e pode ficar mais¬†demorada¬†do que antes com apenas um, al√©m de v√°rias¬†esta√ß√Ķes constru√≠das e nunca inauguradas ‚Äď,¬†e¬†os gamenses ficam irritados quando eu falo que aquilo √© uma favela.

Gente do Gama, voc√™s moram numa favela, o que voc√™s pagam poderia construir uma cidade de primeiro mundo para voc√™s morarem. R$785 milh√Ķes daria para fazer uma esteira rolante dos Jetsons de 44 km, saindo do Gama e indo at√© o Plano Piloto.

“Ningu√©m se revolta?” Eu me revolto, mas se revoltar de NY √© f√°cil n√© ‚Äď n√£o vou sair daqui para ir l√° protestar ‚Äď, o povo l√° pode, se quiser, ter a iniciativa de agir para tentar mudar algo.

Com este texto, recebi um “andou lendo Marx?” HAHA, n√£o! Vivi no Brasil rodeado de ricos por mais de 10 anos, depois vim para os Estados Unidos e percebi como eles usam impostos aqui (n√£o √© perfeito, mas √© melhor que no Brasil).

Os boy conhece Marx, nóis conhece a fome, já diz o Emicida. O problema é quando o esfomeado acha que está de bucho cheio.

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13 coment√°rios

  1. Green comentou:

    como os impostos nos Estados Unidos s√£o melhores usados para o bem comum do que no Brasil?
    A carga tribut√°ria no Brasil fica muito nas costas dos mais pobres, j√° que nos produtos os impostos repassados s√£o iguais pra todos.

  2. Texto perfeito! Vindo de um empreendedor, me dá esperança de um futuro com menor desigualdade social.

    • Mises j√° falava da import√Ęncia da desigualdade social. Ela n√£o √© um monstro de 7 cabe√ßas e ela se faz necess√°ria por que ela gera incentivo para as pessoas crescerem (meritocracia). √Č um dos fatores que geram competi√ß√£o entre empresas.
      Ela nunca vai acabar, mas ela vai aumentar a medida em que se joga o Estado nas coisas.
      Políticas socialistas geram mais desigualdade, pois elas nivelam por baixo. O final dessa história todo mundo conhece, a verdadeira igualdade vem: Todo mundo fica pobre, exceto os que estão no topo da hierarquia, ou seja, alguns são mais iguais do que os outros.
      A solução é e sempre será intervenção estatal mínima na economia, já que não da pra impedir que o Estado se intrometa nas coisas.

  3. Paulo Cesar comentou:

    Marco, sigo você no Facebook e queria ter comentado por lá mas não consegui. Você tem lido sobre Piketty? Sobre como a distribuição de renda no mundo desenvolvido tem piorado cada vez mais e que se continuar nesse ritmo eles vão chegar a ser tão ruins quanto a gente?

    Eu digo isso porque, se eles que já são mais desenvolvidos estão nessa vertente, que esperanças a gente pode ter para a sociedade brasileira? Ainda mais agora com esse movimento todo de corte de recursos em serviços básicos?

  4. Alex comentou:

    Bucho cheio, sim, e o faz pensar que est√° com mesa farta. Mas n√£o consegue discernir o que √© m√° nutri√ß√£o. Coisa de pobre, rsrsrsrs. No meu conceito existe os ricos, os pobres que n√£o conseguem consumir e se conseguem, com muito aperto. E os pobres que compram a presta√ß√£o, classe m√©dia! Essa √© a diferen√ßa de um tipo de pobre da do outro, rsrsrsrs. S√≥ que o segundo,pensa que melhorou de vida, √© “superior”. Mas vive reclamando do pre√ßo das coisas e pede desconto em tudo, se n√£o, n√£o vai dar para comprar tudo o que quer, porque s√≥ rico compra o que quer, na hora que quer, rsrsrs. Eita doce ilus√£o. E ainda um certo governo disse que a base da classe m√©dia brasileira, aumentou! Seria isso mesmo? Ou seria uma conversa para nos convencer que estamos “fingidamente” melhor?

  5. Mark Costa comentou:

    Ent√£o um trabalhador que trabalha 30 anos de sua vida seguindo um rigoroso planejamento financeiro pra finalmente poder viver sua melhor idade de rendimentos √©, segundo sua l√≥gica, rico, mesmo tendo uma vida modesta. A classe m√©dia n√£o tem raiva do pobre, muito menos dos ricos. Ela tem raiva da corrup√ß√£o e incompet√™ncia estatal. Tem raiva dos aproveitadores que roubam seu dinheiro usando a m√°quina p√ļblica e coer√ß√£o estatal a troco de nada. T√° na hora de mudar esse discurso pseudointelectual separatista esquerdista.

    • Marco Gomes comentou:

      Voc√™ divide o mundo entre “esquerda” e “direita” e o “separatista” sou eu?

      A prop√≥sito, confere no dicion√°rio o significado de “separatista”, porque voc√™ n√£o parece saber o que ele significa.

      Abs, separatista.

      • Mark Costa comentou:

        Poxa voc√™ acabou com a palavra “separatista” pra mim, realmente eu estava usando a palavra errada, mas acho deu pra entender o sentido – era t√£o bonita, mas terei que procurar outra palavra agora. Obrigado pela dica.
        Sua resposta parou por aí mesmo?

        • Douglas comentou:

          Classe m√©dia, que n√£o se revolta ao saber o que vai ser cortado nos direitos do mais pobre , nesse “novo Brasil livre de corrup√ß√£o ” , exemplo disso apoiar a PEC 241 , odeia pobre .

          Resumir um texto em “posicionamento de esquerdista intelectual ” a√≠ j√° faz parte da classe m√©dia facista, que n√£o aceita pluralidade de ideias

          • Mark Costa comentou:

            Voc√™ t√° perdendo o foco do problema. Enquanto ficar direitista e esquerdista batendo cabe√ßa em quem est√° certo e quem est√° errado em quest√Ķes ideol√≥gicas sem sentido o problema ir√° continuar. O problema √© o estado incompetente e corrupto e nenhum governo conseguiu resolver isso, sequer melhorar. Alguns acham a PEC 241 uma administra√ß√£o p√ļblica respons√°vel, outros acham que √© uma redu√ß√£o dos direitos da popula√ß√£o e na moral, poucos brasileiros sequer leram ou muito menos entenderam o que √© a PEC 241. Eu acho uma medida incompleta, s√≥ ela n√£o ir√° resolver nada – e pode at√© piorar. O Brasil precisa se atualizar, se entender e reajustar suas leis atrav√©s de v√°rias reformas, mas nenhum governo tem peito e for√ßa pol√≠tica pra fazer isso – ou mesmo vontade.
            Voc√™ citou classe m√©dia, voc√™ sabe quem √© classe m√©dia no Brasil? √Č a fam√≠lia que ganha entre R$ 292 e R$ 1.019 por membro da fam√≠lia…

  6. Guilherme comentou:

    Marx no capital fala sobre isso de quem n√£o o que vender vende seu trabalho. Se n√£o leu, recomendo ler, msm n√£o curtindo comunismo/socialismo/esquerda etc

  7. Douglas comentou:

    Concordo e admiro muito os posicionamentos, e o trabalho de Marcos Gomes.

    Só queria fazer uma crítica em relação à não revolta dos moradores da periferia.

    Infelizmente no Brasil, a classe mais baixa, √© moldada a ter pensamento conservador brasileiro. Aquele que eu simplificaria na express√£o “demoniza o estado, √© glorifica o mercado”.

    O sistema é tão desumano Рé bastante bem desenvolvido Рque faz o pobre acreditar cegamente na meritocracia.

    E bastante desse controle vem da falta de educação critica Рque saudade de Paulo Freire Рunida à uma mídia não regularizada, com interesses elitistas.

    N√£o devemos culpa-los por isso, n√£o devemos colocar mais peso ainda nas costas deles.

    Fa√ßo aqui outra cita√ß√£o a Paulo Freire, que quando indagado sobre “como realizar uma mudan√ßa na educa√ß√£o com uma corja pol√≠tica como essa?”

    E Freire respondeu “a transforma√ß√£o sistem√°tica da educa√ß√£o n√£o depende s√≥ dos pol√≠ticos. Fazer TRABALHOS SOCIAIS”

    Cito tamb√©m Elis Regina agora que diz “estamos aqui para fazer o bem. √Č nosso papel como privilegiados fazer o bem, e n√£o fica s√≥ xingando os pol√≠ticos ”

    Além de criticarmos a classe mérdia, devemos também nos preocupar em acabar com esse abismo de classes entre nós.

    Devemos incentiva-los a enxergar os males das informa√ß√Ķes, a entender as contradi√ß√Ķes do sistema, e critica-lo, s√≥ assim termos um papel CR√ćTICO da perifa.

  8. marcelo comentou:

    Acho que o texto estimula uma reflex√£o legal sobre conceito de riqueza mas tem um tom arrogante e prepotente que praticamente me impediu de concordar com as opini√Ķes expostas. Antes de expor minha opini√£o s√≥ queria deixar claro que meu intuito n√£o √© iniciar uma dessas brigas ideol√≥gicas de internet apontando dedos e sim estimular alguma reflex√£o ou autocr√≠ticas do mesmo jeito que o texto me estimulou.
    Na minha opinião a definição de riqueza acaba sendo muito mais relativa do que absoluta, de modo que muitas vezes importa mais a evolução no padrão de vida de uma pessoa do que a sua classificação de classe social. Eu pelo menos imagino que uma pessoa fique mais feliz com um aumento de renda por se sentir mais rica do que por ter subido de classe D para C ou por se enquadrar na definição de classe média. O fato de uma pessoa enriquecer minimamente e ser arrogante com os outros por isso é um problema cultural e ao meu ver não se relaciona com qualquer classificação de classes ou nível de riqueza.
    Quanto ao argumento dos impostos, imagino que a carga tributária total de fato acaba sendo mais pesada para pessoas mais pobres mas não me parece muito óbvio argumentar que são os pobres que bancam a maior parte dos impostos, primeiro porque a população mais pobre é muitas vezes empregada informalmente e outras vezes isenta de imposto de renda e segundo porque distribuição de dividendos não é isenta de imposto de renda pois os impostos são pagos pela pessoa jurídica de modo que os ricos que recebem dividendos já pagaram seus impostos de forma indireta. Mas obviamente dependendo da minha definição de pobreza, posso argumentar em qualquer país do mundo que são os pobres que pagam a maioria dos impostos.
    Por fim, na minha vis√£o o autor (se encaixando ou n√£o na sua defini√ß√£o de riqueza) faz algo parecido com o que critica sobre a classe m√©dia ao tentar convencer algu√©m de que essa pessoa mora numa favela ou de que a pessoa √© pobre. Al√©m de ser um ato arrogante (principalmente de algu√©m que saiu de l√°, possivelmente ex-pobre) porque muitas vezes a pessoa trabalhou muito para ter condi√ß√Ķes de morar naquele lugar e se sente mais rica e realizada por isso, me parece um ato bastante desnecess√°rio uma vez que o fato da pessoa saber ou n√£o que mora em uma favela ou que √© pobre ou rica n√£o mudar√° a sua vida ou aumentar√° a sua revolta. Muito provavelmente essa pessoa sabe da sua situa√ß√£o e sente a revolta por pagar impostos para um governo que n√£o os gasta da maneira correta mas se sente impotente para mudar algo e com certeza n√£o precisa de algu√©m para falar isso para ela.
    N√£o conhe√ßo a cidade de Gama mas dou raz√£o para eles quando se irritam ao ouvir uma frase como “…fico triste em ver morador de favela achando que mora em cidade porque tem asfalto; pobre achando que √© rico porque tem carro zero‚Ķ”.